terça-feira, 30 de setembro de 2008

Salva-vida:


É hora de morrer pro inimigo que vive em mim, um sem fim de desventuras acontece o tempo todo, estado de constante desgraça nesta humilde vida, já não me surpreende mais a dor ou o sofrimento, nem poderia, a vida é circular, tudo é ciclo, o maldito amor é supremo, não farei da minha vida uma guerra, tempos secos existem para que se valorize as cheias, não há nada que me prove o contrário, então aqui estou eu, valorizando o momento, que é meio seco/meio cheio, nada certo, mas é momento, tem seu valor, tem sua lição, aqui me dispo dos medos me agarrando a sorte, a serenidade das incertezas da minha breve porém consistente existência, aqui sempre resistirá a esperança, é a cortesia dos Deuses aos que sentem muito, aos que sonham demais, cortesia para os que pulam do penhasco acreditando que serão salvos antes de se esfacelarem no chão, durante muito tempo esperei ser salva, aqui estou eu abolindo o "pra sempre" para todo bem e mal, me declaro um parêntese sempre em aberto, reticente eternidade, a única certeza da minha existência é a vida, da morte só sei o descanso, o resto é mistério, aproveito o tempo que tenho, sigo me salvando cada vez mais.


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segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Um convite inusitado:


Hoje o teatro me chamou pra voltar, ele dsse: "volta pro palco", eu não pensei nem meia vez, sete anos depois darei vida nova a minha primeira personagem, aquilo que foi um parto, primeiro desafio, talvez por destino, encerrará o meu jejum de quase um ano longe das cochias, hoje terreno já tão conhecido, agora mais maduro, mais seguro, D.Alma está de volta, espero fazer jus a este espetáculo, o certo é que todo meu coração estará alí, como sempre esteve, hoje o bom filho a casa torna, tomo de volta o meu lugar, com a certeza de que jamais deveria ter saído de lá.

foi o melhor convite, o melhor presente, a melhor supresa possivel, meu mundo voltou a girar, e agora sim tem um novo sentido, viver pra arte, como sempre foi até aqui, me sentir completamente plural, como sempre fui.




(é isso e lá pelos meados de novembro, no teatro do dragão do mar, mais uma vez serei A avarenta, de Moliére adaptado por Charles Dickens e revisto por Tonico lacerda cruz, vá me ver, caro leitor.)


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sábado, 27 de setembro de 2008

Sonho:



Numa floresta de macieiras ela o seguia, sua voz era como a canção do flautista e ela uma criança curiosa, macieiras, macieiras, vermelhas, azuis, roxas... maçãs, se sentia segura, atendia o chamado, trilhava com ele o caminho, pararam entre as duas últimas macieiras da floresta, ele a entregou uma maçã vermelha, um sorriso, a maçã foi guardada, como que para depois, estendeu a mão para ela, as palavras mais que mágicas estavam gravadas em seu antebraço: "Amittere non potest quis, quod suum non fuit", os dois sabiam, ali, as duvidas se esgotaram, qualquer dor desapareceu, era seguro, era certo, deram as mãos, avistaram o antigo castelo medieval de pedra, "é ali o castelo do rei" ele disse, levando-a pela mão cruzaram o foço, chegaram a frente da enorme porta, que se abriu sem o mínimo esforço, entraram juntos, e isso é tudo.


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("Então que se foda amor, que se foda, se a palavra suja não rima. Que se foda amor, que se foda. Pecado é não viver a vida. Então esquece tudo e vem, que a vida é assim, e se a gente deixar de viver, não vai dar tempo de sorrir. Vamos pegar essa estrada, e sentir o vento cantando esta música, que conhecemos mais que nós mesmos." Dance of days- Interlúdio Para Um Bar de Beira de Estrada Por 33 Anos Fora do Mapa)
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sexta-feira, 26 de setembro de 2008

A constante inevitável:


De vez em quando o que é ruim nos domina, é simples, ele vem chegando devagar, e de pouquinho em pouquinho lhe toma por inteiro, quando se vê já é tarde, tudo escuro, sofrer inevitável, então precisa-se de férias, uma espécie de "licença da rotina", demanda tempo, coragem, fé, justamente aí vem a correria, a fraqueza, o ceticismo, parecemos ter apenas o oposto do que precisamos, vazios, a solidão nos encontra, sufocados, exaustos, o sentido desaparece, nos perdemos pra nós mesmos, e perceber a perda exige amor próprio, se recuperar exige força de vontade, quando a solução é quase invisível, como que por um milagre a luz chega bem mais lenta que as trevas, vai penetrando cada fresta de esperança, iluminando o caminho, nada nunca mais é igual depois de passar por esse ciclo que se repete constantemente, todos passam por ele, alguns ficam presos, outros correm fugindo, não adianta, cedo ou tarde ele te pega pelo pé e te ensina o valor da vida, da amizade, do amor, da família, e especialmente, ensina o seu valor, é ele que movimenta o universo, que torna as pessoas mais humanas, superação para cada nova etapa daquilo que nunca termina, o espiral da vida é infinito do tamanho das nossas possibilidades diante dele.


(amém!)

Porcos e diamantes:



Não, não é porque somos porcos que precisamos chafurdar na lama, "quando percebi que o mundo é sujo, tratei de me sujar também", bela desculpa mas... veja bem, não faz sentido, alguns porcos são limpos, mesmo que a maioria seja imunda, é certo que uma vez ou outra mesmo os mais higiénicos passam pelo chiqueiro e provam da lavagem, o importante é não ceder a maioria, uma vez chafurdando, sempre chafurdando, limpar um porco sujo é missão impossível, as chances dele voltar ao chiqueiro são muito grandes, mais que isso, se você estiver limpo as chances dele (no mínimo) tentar lhe sujar são enormes, não vale a pena.
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-Para os que resistem aos encantos da sujeira o prémio é a margem, são seres raros, superiores, exemplares quase únicos num meio enlameado.
-Para os que insistem o castigo é a convivência, dependência, alienação de viver ser e sentir igual a todos os outros porcos imundos, que se lambuzam diariamente na lama da sociedade, saboreando de bom grado a lavagem que lhes é oferecida, à eterna procura, ganho e perda de diamantes.
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(snatch)

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

(Desgraçada)mente:


Uma multidão de pernas encolhidas e cabeças baixas, suicidas em potencial, as pessoas andam desistindo fácil, ou não, é difícil mesmo sobre(viver) a sociedade que criamos, cruelmente, a cada dia mais alguém dá início a sua depressão, "alguéns" na verdade, não tarda teremos um novo mal do século mil vezes pior que o anterior completamente instalado no ser humano até a última fibra do seu corpo desconjuntado, um legião de infelizes, deprimidos, angustiados, anti-depressivos... ah os tormentos da vida moderna, é o fim, as coisas que possuímos acabaram possuindo a gente (você estava certo Tyler), o amor não faz mais sentido, Deus e a fé são completamente desacreditados pela massa cética que tomou conta, viver perdeu a graça, não é mais bonito, nem divertido, resultado de um amadurecimento pobre em inteligência emocional que gera adolescentes caóticos e adultos vazios, seres completamente instáveis, não há segurança, o sentido da existência foi deturpado, e ái de quem ainda ousa sentir e ser nos tempos do agir e ter, o fato é que aqui o futuro parece péssimo e o presente não está perdendo, o que se perdeu mesmo foi a fé, os sonhos, a (boa) vontade... Vejo uma geração de artistas sendo gerada, todos filhos da desgraçada fatalidade que acompanha estas décadas, não vejo nada de bom sendo deixado para os próximos, só uma receita do que não se deve fazer, para que eles tentem ser um pouco menos infelizes.


(A maior expressão de angústia, pode ser a depressão, tudo que você nem sente, indefinível, mas não tente se matar, pelo menos essa noite não.)

Minha aventura:


As palavras aqui tem se repetido bastante: inferno, sofrimento, dor, depressão, família, ódio, diário, cotidiano, falta, amigos, aula, decepção, não, perda, perdida, culpa, "não sei", "não quero"... Onde foram parar as possibilidades?, o positivo parece morto e enterrado, e o meu vocabulário invertido, antes cantava uma felicidade sem precedentes, não que eu seja infeliz, mas estou infeliz, espero ser por pouco tempo, o que me falta mesmo é a aceitação dos outros no sentido de acolherem o meu sentimento, remédios não tem nada com isso, acordar é um momento trágico, vontade de dormir pra sempre sem morrer, simplesmente passar por isso em paz, num sono profundo, longe de quem só piora o que já está difícil, esse é o meu momento, a minha dor, eu tenho direito de vive-lo, preciso passar por ele, sofrer ensina, é ciclo seco, ninguém tem culpa, demanda dias, meses, não vou mais esconder, já disse, não vou renunciar a mim, nenhuma parte, nenhum pedaço, deste ser errante, vibrante, sujo, quente, hoje triste, melancólico, sensível, e daí?, sou bem grandinha para lidar com a desgraça, já aguentei muito, era bem pior quando escondia, você nunca me viu trancada gritando com a boca tampada no banheiro simplesmente porque doía e jamais alguém poderia me imaginar assim, agora entendo porque, porque não suportam sofrimento, querem pessoas que vivem em comerciais de margarina,(sorrindo sempre despudoradamente, aquilo é quase um crime), gente deprimida, arrasada, deprime os outros, atrapalha, o homem pode suportar a própria dor mas não a do vizinho, me poupe, me economize, desde quando o ser humano é tão autruista assim? Minha dor, MINHA, não sua, finalmente ela encontrou um caminho para sair daqui de dentro, de um jeito ou de outro ela vai sair, novamente aqui estou: fraca, suja, doída, desmascarada, aos pedaços... e desde que me deixem passar em paz por isso, em breve me sentirei muito bem, obrigada.



(se ao menos no escuro eu conseguisse apagar, dormir sem sonhar, apenas dormir, sem sonhar.)