terça-feira, 7 de outubro de 2008

Harvest; snacks and tissues.



I wish it was the 60’s and I had dreams. We all had dreams. Hard candy, cold water dreams. I wish all music was stereo and sounded as if we were inside it. Is it possible to not make typing mistakes? I wish there were more boat puzzles, where the ocean gets confused with the sky. The life of vanity and insanity. We could tell our children about the sunsets in California. We could tell our children about unwarm sunny days and the empty breeze of cloudy weather. We could tell our kids about rock and roll and forgiving. Tell my friends to come over to white sofas and right-angled furniture, in the happiness of our minds, the distorted confusion. Ten minutes of a song wouldn’t be enough. The playlist of life. I wish we could love like music loves us. I wish there was a perfect soundtrack and a perfect breath for every instant in life. We could sleep in blankets in bugless grass and drink sparkly mint drinks. We could be happy in the sand. We could be happy in the snow. We could be happy inside and out, candycould always be made of sugar and pink and brown and we could eat it all day long, counting the cars on the streets. I wish I could tell my love to be quiet and my heart to keep a pace. Does it ever? If there was beauty in every word and everyone was talented we could spend the nights counting the stars. Empty comfortable rooms, thick pillows, thick blankets. Thick white blankets. Who would come to my parties? Who would come along to seize the day? Finish the soda while staring at the silver meal. All of the time, all the sensations in my pores. We are all genetically made for desire. I bet nature never thought we could survive love.
As for me, guilty as charged, overwhelmed by the hour. And it feels damn good. playlist: like a hurricane, down by the river, i believe in you. all songs by neil young.

(Escrito em inglês sim, um presente para um amigo.)

Memória hospitalar azulada:




Lembro-me pouco do hospital, quase nada na verdade, lembro que fazia festas azuis com direito a docinhos e bolo de chocolate, que ia na lanchonete e separava pra mamãe todas as jujubas azuis de anís,(sempre odiei as de anís), tinha uma rampa espiralada, eu acho, grandes janelões de vidro, não sei porque sinto que a vista era linda, recordo vagamente uma espécie de terraço, o carpete era verde e confortável, um cheiro de casa, morei alí por anos, era minha casa, lembro dos exames, dos tampões e do s médicos, jamais esquecerei do medo, da paúra do bloco cirúrgico e da anestesia, o medo de morrer, de ver, e o de nunca mais ver nada, o gosto das lágrimas continua o mesmo, uma criança mimada chorava antes das cirurgias, ela ainda reside aqui, está presa, ou não, mamãe fez força todo o tempo pra que eu não sentisse nada, a idéia era passar por tudo como se o tudo nada fosse, mas é, o tudo mamãe é muito maior do que a senhora imagina, agora eu sinto, e o acumulo dos anos deixou o tudo cada vez pior, não você não me protegeria para sempre, e agora eu deixo a redoma de vidro que vocês decoraram tão bem para que eu vivesse confortavelmente inatingível, aqui está a minha escolha, quero ser superhumana, escolho sentir, atingir, e atingida ser, parece que foi ontem que perdi o balão azul (azul mamãe, a nossa cor preferida), posso sentir como naquele dia a cordinha escapando pelos dedos desta criança, (sim mamãe, ainda sou criança, pra compensar a infância que roubei de mim mesma) posso ver ele subindo em direção a clarabóia, é a mesma sensação de perda para sempre, ali o balão se tornou impossível, minha primeira grande perda, meu primeiro nunca mais, era azul, nossa cor preferida, tinha um nome, algo me diz que era inocência, mas minha memória anda me sabotando estes dias, e, lembro-me pouco do hospital...

sábado, 4 de outubro de 2008

Dia nada


Desde a hora em que acordei:
ninguém em casa

a única voz que escuto é a minha

estranho
a casa vazia, quase morta
sinal de nada

um por um

nossos planos foram desfeitos

não gosto de dias sem planos

parece um dia perdido

hoje não vivi

animalizei

-acordei

-comi

-dormi

arrumei meu quarto

meu ninho

a depressão não veio

nem ela

até ela

hoje me deixou só

todas as luzes amarelas acesas

para espantar qualquercoisa

avisam que hoje esta casa merecia uma festa

um encontro

boas risadas

boa música

mas o nada impera

o nada acontece
as esperanças são ralas.

Narciso e Narciso


Se Narciso se encontra com Narciso

e um deles finge
que ao outro admira

(para sentir-se admirado),

o outro

pela mesma razão finge também

e ambos acreditam na mentira.


Para Narciso

o olhar do outro, a voz

do outro, o corpo

é sempre o espelho
em que ele a própria imagem mira.

E se o outro é
como ele

outro Narciso,

é espelho contra espelho:
o olhar que mira

reflete o que o admira

num jogo multiplicado em que a mentira
de Narciso a Narciso

inventa o paraíso.
E se amam mentindo
no fingimento que é necessidade

e assim

mais verdadeiro que a verdade.


Mas exige, o amor fingido,
ser sincero

o amor que como ele

é fingimento.


E fingem mais
os dois
com o mesmo esmero
com mais e mais cuidado
- e a mentira se torna desespero.

Assim amam-se agora
se odiando.

O espelho embaciado,
já Narciso em Narciso não se mira:

se torturam

se ferem

não se largam

que o inferno de Narciso

é ver que o admiravam de mentira.


(Ferreira Gullar
)


Desabafo:



"A intimidade é um caminho sem volta" todos sabem, a regra é clara e os avisos estão em toda parte, eu odeio a intimidade, porque ela sempre chega, inevitavelmente, traz junto a si a rotina, as brigas, as neuroses diárias, que nunca mudam, nunca acabam. Faz parte de qualquer relacionamento o ponto em que se sente confortável demais, para dizer, subentender, agir, esquecer, ou até fingir, a convivência traz intimidade e a intimidade arruína tudo. É quando você conhece alguém o bastante pra saber onde está, o que está fazendo, pensando, o que diria em determinada situação, você é intimo, e você sabe, sabe quando está mentindo, por mais que ainda te mintam, sabe quando as coisas não vão dar certo, por mais que jurem pra ti o contrário, que se fodam os espelhos, que se fodam os laços, nessa vida ninguém presta, são vários sacos de farinha todos em uma grande fila, (são farinhas diferentes mas cada uma tem seu saco, e cada saco está entupido até a borda de seus iguais) não, não confio em ninguém, e não duvido de mais nada.


(
Intimidade

No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.

[ José Saramago]
)

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Gaiola de ouro:



Pássaro de asas cortadas já não canta, não canta nem voa, gosto amargo na mente enche a boca, ela quase não abre, a gaiola é grande, cheia de outros pássaros, nenhum é como aquele, aquele é maior, mais bonito, quando tinha asas cantava mais alto, os outros não gostavam, mandaram aparar-lhe as asas, agora vive amoado, preso, foi vencido pelo mundo, isso que dá ser único em gaiola cheia, tinham medo (ele pensava), sozinho, passava a maior parte do tempo em seu ninho artificial, lá guardava suas coisinhas, o pouco que lhe agradava, tudo que lhe fazia sentir parte, ainda que pequena, de algo maior, o que lhe aproximava dos outros, se agarrava aquilo com força, era visto, sempre de longe, como um louco (ser diferente gerava indiferença), viver alí não era pra ele, não era o bastante, ele sabia, toda sobre-vida era curta, queria fugir, sonhava. Preso, quem diria, por cantar... agora choraminga sua tristeza; o único meio de fugir da maldita gaiola de ouro.

O verdadeiro banquete:


Um pouco de vingança faz bem, e não há quem prove o contrário, nada como ver no inferno quem um dia te jogou lá, demasiado humano eu sei, porém essa é a realidade, "você vai morrer e não vai pro céu, é bom aprender, a vida é cruel", quantas das suas desgraças não foram desejadas por outros?, quanto sofrimento teu não foi culpa da praga alheia bem rogada?, duvida?, acho perda de tempo acreditar que é possível ser bom, carregar no peito um coração cem porcento puro, virgem, imaculado, não se negue suas maldades, não esconda seus pensamentos profanos, é disso que as pessoas precisam: subverter o mal, entender que nem todo mal é necessáriamente ruim e que a maioria deles é bastante necessária, justificável, deixe isso fluir dentro de você, amadureça a idéia dos desvios de caráter, eles fazem parte do caminho, não tenha medo da vingança, da vontade da vingança, muito menos da realização dela, a vingança é quase sempre merecida, um prato que se come frio, as vezes gelado, perca a timidez em devorá-lo: o melhor tempero é a fome.